terça-feira, 19 de junho de 2012
"Negrinha" - Monteiro Lobato
Marxismo em questão (Sociologia - 2º Ano)
Frei Betto
Cristianismo e marxismo*
As relações entre marxistas e cristãos
O marxismo é, sobretudo, uma teoria da práxis
revolucionária. Isso não impede que certos marxistas queiram transformá-lo numa
espécie de religião com seus dogmas, fundada na leitura fundamentalista que faz
das obras de Marx, Engels e Lenin uma nova bíblia. Afinal, o marxismo, como
qualquer obra teórica, jamais poderá ter uma única leitura. O processo
epistemológico ensina que um texto é sempre lido a partir do contexto do
leitor. Esses “óculos" da realidade determinam a interpretação da teoria.
Assim, a obra de Marx pode ser lida pela ótica do
materialismo positivista de Kautsky, do neokantismo de M. Adler, do
hegelianismo voluntarista de Gramsci ou objetivista de Lukacs, do
existencialismo de Sartre, do estruturalismo de Althusser, bem como à luz da
luta camponesa de Mao Tsé-Tung, da guerrilha cubana, da realidade peruana de
José Carlos Mariátegui ou da insurreição popular sandinista.
O que importa é utilizar a teoria marxista
como ferramenta de libertação dos povos oprimidos e não como uma árvore
totêmica ou um talismã. Fruto da luta do proletariado, o marxismo deverá ser
sempre aferido por essa mesma luta, pois só assim não perderá seu vigor
revolucionário para transformar-se numa abstração acadêmica.
Nesse sentido, o marxismo e os marxistas não podem
ignorar o novo papo do cristianismo como fermento de libertação das massas
oprimidas da América Latina. Contudo, para apreender esse potencial
revolucionário do cristianismo, o marxismo deverá romper a camisa-de-força de
sua ótica objetivista e reconhecer o papel da subjetividade humana na história.
Isso implica a superação da tendência economicista e, nos regimes socialistas,
de uma certa “metafísica do Estado", para se admitir a autonomia relativa
das superestruturas. A prática revolucionária extrapola o conceito e não se
esgota em análises estritamente científicas, pois encerra necessariamente
dimensões éticas, místicas e utópicas. O progresso alcançado pelos países
socialistas e a ideologia encarnada pelo partido são insuficientes para
equacionar todos os aspectos da relação interpessoal e suas conseqüências
sociais e políticas.
Aliás, que contradição haveria entre o papel
determinante da subjetividade humana e o materialismo histórico? Como
determinante ''em última instância", a esfera econômica resulta no
complexo formado pelas forças produtivas e pelas de produção. São essas
relações de produção que determinam o caráter das forças produtivas. Falarem em
reações de produção é admitir que, “em primeira instância, estão as relações de
classe, a militância revolucionária das classes dominadas, cuja consciência e
prática são determinantes na esfera econômica. Ao contrário, negar a
importância da subjetividade e da intencionalidade humanas é pretender reduzir
o marxismo a uma teoria puramente científica, é incorrer numa espécie de
neo-hegelianismo que devolve a marcha da história ao controle de uma razão
absoluta e universal. A riqueza e a originalidade da teoria marxista reside
justamente em estar vinculada a prática revolucionária que, cm sua dinâmica,
confere e contesta a teoria que a inspira e orienta. Sem essa relação dialética
teoria-práxis, o marxismo se esclerosa numa ortodoxia acadêmica perigosamente
manipulável por quem controla os mecanismos de poder.
Esse primado da prática tem levado os marxistas a
reconhecerem que, por vezes suas concepções a respeito da religião são
religiosas no sentido de dogmáticas desvinculadas da prática histórica. Por
isso, de olho no que se passa hoje na América Latina, o 2º Congresso do Partido
Comunista Cubano, em dezembro de 1980, aprovou uma resolução na qual proclama
que:
o significativo processo de
incorporação massiva e ativa de grupos e organizações cristãs, incluindo
elementos do clero católico e de outras denominações, nas lutas de libertação
nacional dos povos da América Latina, como Nicarágua, El Salvador e outros, e o surgimento
de instituições e de centros ecumênicos que desenvolvem atividades
decididamente progressistas e promovem o compromisso político e a união
combativa de cristãos revolucionários e marxistas, a favor de profundas
mudanças sociais no continente, demonstram a conveniência de continuar
contribuindo para a consolidação sucessiva da frente comum em nosso hemisfério
e em todo o mundo.
O avanço maior na relação entre cristianismo e
regime popular dá-se hoje na Nicarágua, onde pela primeira vez na história os
cristãos participaram ativamente do processo de libertação. Esse fato por si só
derruba o caráter de axioma dado à afirmação de que “a religião é o ópio do
povo" (como disse Marx – querendo dizer que a religião aliena a população –
grifo meu). Tanto que, pela primeira vez na história, um partido
revolucionário no poder - a Frente Sandinista de Libertação Nacional - emitiu
um comunicado oficial em outubro de 1980 sobre a religião, no qual se diz:
Alguns
autores afirmam que a religião é um mecanismo de alienação dos homens, que
serve para justificar a exploração de uma classe sobre a outra. Essa
afirmação, sem dúvida, tem um valor histórico, na medida em que, em diferentes
épocas históricas, a religião serviu de suporte teórico à dominação política,
Basta recordar o papel desempenhado pelos missionários no processo de dominação
e de colonização dos indígenas de nosso país. Entretanto, os sandinistas
afirmam que nossa experiência demonstra que quando os cristãos apoiando-se em
sua fé, são capazes de responder as necessidades do povo e da história, suas
mesmas crenças os levam à militância revolucionária (...)
Portanto, falsas certezas estão sendo desmontadas
pela prática histórica. Nos últimos 20 anos, nos países do Terceiro Mundo,
especialmente na América Latina, o cristianismo passa a revelar seu caráter
libertador como expressão de resistência e luta dos oprimidos. E, por outro
lado, contrariando todos os prognósticos acadêmicos, a religião não desapareceu
nos regimes socialistas. Ao contrário, as igrejas constituem, hoje, importante
força na luta pela paz e cresce o número de seus fiéis, Perduram, sim,
dificuldades intra e extra-eclesiais. Dentro das igrejas, bispos e pastores não
tem suficiente clareza e consenso quanto à maneira de inserção pastoral nos
regimes socialistas. Fora, sobretudo no âmbito dos partidos no poder, certos
preconceitos anti-religiosos nutrem a discriminação que reforça a proximidade
entre cristãos e setores contra-revolucionários.
É verdade que também entre cristãos permanecem
tabus com relação ao socialismo. A propaganda capitalista é bastante forte para
alimentar terríveis fantasmas que provocam insegurança e medo. E muitas vezes o
sectarismo de certos militantes marxistas reforça a ideia de novos cruzados
combatendo cm nome de urna nova fé de conseqüências totalitárias. Se hoje é
mais difícil encontrar, em documentos oficiais da Igreja Católica, as veementes
proclamações anticomunistas do tempo do Papa Pio XII, também não abundam
simpatias para com o socialismo. Há, sim, aberturas doutrinárias e políticas:
primado do caráter social da propriedade, a socialização dos bens, primado do
direito de uso sobre o direito de posse e, na política, a diplomacia realista
do Vaticano estreitando relações com quase todos os países socialistas. Um dos
raros exemplos de clara opção socialista, por parte de bispos, está nestes
documentos regionais divulgados no período mais negro da ditadura militar
brasileira, quando a própria Igreja era intensamente atingida:
É preciso vencer o capitalismo.
Ele é o mal maior, o pecado acumulado. a raiz estragada, a árvore que produz
esses frutos que nós conhecemos: a pobreza, a fome, a doença, a morte da grande
maioria. Por isso é preciso que a propriedade dos meios de produção (das
fábricas, da terra, do comércio, dos bancos, fontes de crédito) seja superada
[...] Por isso, queremos um mundo em que haja um povo só, sem a divisão entre
ricos e pobres.
Menos popular, o discurso deste outro documento é
melhor articulado:
O processo histórico da sociedade
de classes e a dominação capitalista conduzem fatalmente ao confronto das
classes. Embora seja isto um fato cada dia mais evidente, este confronto é
negado pelos opressores, mas é afirmado também na própria negação. As massas
oprimidas dos operários, camponeses e numerosos subempregados dele tomam
conhecimento e assomem progressivamente uma nova consciência libertadora. A
classe dominada não tem outra saída para se libertar, senão pela longa e
difícil caminhada, já em curso, em favor da propriedade social dos meios de
produção. Este é o fundamento principal do gigantesco projeto histórico para a
transformação global da atual sociedade numa sociedade nova, na qual seja
possível criar as condições objetivas para os oprimidos recuperarem a sua
humanidade despojada, lançarem por terra os grilhões de seus sofrimentos,
vencerem o antagonismo de classes, conquistarem, por fim, a liberdade.
Marxistas e cristãos têm mais arquétipos em comum
do que supõe a nossa vã filosofia. Um deles é a utopia da felicidade humana no
futuro histórico-esperança que se faz mística na prática de inúmeros militantes
que não temem o sacrifício da própria vida. Marx chama esta plenitude de reino
da liberdade e, os cristãos, de reino de Deus. No terceiro volume de O Capital ele escreve
que "o reino da liberdade inicia ali onde cessa o trabalho condicionado
pela necessidade e pressão externa; o reino da liberdade está situado, pois, e
por força das coisas, além do âmbito da produção material". Ora, nada na
política ou na história garante a realização dessa meta, como também a salvação
esperada pelos cristãos não tem explicação histórica, é dom de Deus. Mas há, no
mais profundo do nosso ser, o desejo comum de inúmeros marxistas e cristãos de
que a humanidade elimine todas as barreiras e contradições que dividem ou
separam os homens. E a esperança incontida de que o futuro será como a mesa
posta em tomo da qual, irmanados, todos haverão de partilhar a fartura do pão e
a alegria do vinho O caminho capaz de levar a essa aspiração, derrubando
preconceitos e provocando a unidade, não será certamente o das discussões
teóricas, mas sim o do compromisso efetivo com a luta de libertação dos
oprimidos.
Texto retirado do livro O Marxismo na América Latina, organizado por Michael Löwy.
Com base nas nossas conversas sobre Marx e no texto acima, comente, debata e discuta, quantas vezes quiser sobre como o Marxismo e a luta de classes pode ser ajudada ou atrapalhada pela Igreja!
Data limite para as postagens: 30/06/2012 até 23h59
Política e Sociologia (1º Ano)
Em nossas aulas sobre política e sociologia vimos alguns conceitos sobre política e formação do cidadão. Assim proponho a vocês que discutam e conversem o máximo possível sobre algumas questões.
Data limite para as postagens - 28/06/2012 até as 23h59
Com base nas imagens abaixo faça uma relação das duas comentando como a política pode ser um fator de mudança da sociedade. Este espaço é de vocês, por isso vamos colocar as ideias, propostas, análises e tudo mais em prática...
Data limite para as postagens - 28/06/2012 até as 23h59
Assinar:
Comentários (Atom)



